terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Broto

Era uma vez um broto, bem jovenzinho. Ao lado de sua família, em um campo muito calmo e nutritivo, vivia encucado com tudo: “Mas que chuva chata, que me molha!”, “Esse Sol poderia dar uma trégua”, “Eita terra batida, assim fica difícil”...

O tempo foi passando e os brotos, seus vizinhos, aproveitando cada momento de suas vidas, iam crescendo, fortalecendo-se, ganhando peso... Mas o broto reclamão, preocupado com o que lhe acontecia a cada momento, buscando justificativas, não crescia como os outros. Ao perceber a sua diferença corporal, ele não conseguiu encontrar as respostas, muito menos as motivações do fato, que desejava. As coisas pareciam não fazer sentido: “Mas eu tomei a mesma chuva que eles tomaram”, “Estive aqui, na mesma terra, durante o mesmo tempo”, “O Sol brilhou para todos”.

De fato, quando o período de crescimento se findou, o brotinho continuava brotinho, enquanto seus companheiros haviam se tornado brotos, prestes a desabrocharem, robustos que estavam na hora certa. O brotinho ainda não entendia, mesmo com suas reflexões. Insatisfeito e contrariado, foi ter com o senhor das terras, a pessoa que lhe colocou naquele local, junto de todos.
“Meu caro, quero saber o que aconteceu comigo, que não cresci como os demais. Garanto que vivemos juntos as mesmas dificuldades e oportunidades.” Paciente, o senhor lhe respondeu:

“Mas é claro, meu querido brotinho. Para você o tempo não fora como para os outros. Enquanto para uns o dia urgia, para você emperrava; os demais souberam aproveitar a chuva, o Sol, a terra, o que também lhe fora oferecido, mas não com o mesmo proveito. Ora reclamava, ora justificava”.

Por fim, o senhor lhe disse: “Sabe, mesmo pequeno, você ainda pode ser um broto como os demais, caso assim deseje. Colocarei um pouco de adubo em sua terra, o que a deixara mais ácida, e lhe molharei além da chuva, o que lhe dificultará os movimentos. O Sol, porém, será na medida certa, conforme as estações. Confie em mim, e aproveite o dia”.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Música

Belas sinfonias adentram os meus ouvidos
Passam pelo meu tímpano
Fazem vibrar meus ossos

Passam pela garganta, limpando-as
Atingem meus pulmóes, aliviando-os
Caminham pelo coração, renovando-o
Descem pelo estômago, marcando presença
Chegam ao intestino, estimulando-os
Por fim, no falo, espalham-se pelo corpo...

Estou vivo!

Ao Mestre Jesus

Ao senhor que muito me conhece, obrigado!
É grande não pelas glórias lançadas em meu culto
Não pelo altar que construí ao senhor
Nem pelas hosanas que penso e emano...
Não...

É O Mestre porque me entende
Desce até mim para ouvir minhas palavras
Conhece a minha insignificância, teimosia, fuga
Sabe que sou assim, desleixado pela vida, cabisbaixo, morno
Mesmo assim, ouvi-me, ao meu lado

É Grande, Mestre:
Eis que estou convosco até o final dos séculos... E me enche de fé
Vim para que tenhais vida e vida em abundância... E permite que eu viva
Não se turbe o vosso coração... E me estimula à alegria
Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem... E esquece as minhas investidas contra o Céu
Meu jugo é leve... E não anseia mais que a minha felicidade
Com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós... E me relembra a responsabilidade
Vós sois deuses... E me impulsiona ao criar
É na vossa paciência que ganhareis as vossas almas... E me ensina a ter calma
A Deus tudo é possível... E impulsiona as minhas atitudes
Que te importa a ti? Segue-me tu... E me faz encarar meus temores

Sabe, Mestre
Mesmo assim, ainda não o compreendo
Ainda é um enigma, um mistério
Ajude-me a lhe encontrar, eu imploro
Porém, sei que está aqui, comigo
Mais uma vez...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Ao homem que cresce

Ao antigo soldado viril e forte
Fortaleza de seu senhor, a lhe garantir paz e terra

Luta, homem, pelo que lhe é no presente
Combata as possessões que lhe assombram
De pés unidos na areia que lhe suga e sustenta
O seu corpo, garante a sua alimentação,
Oferta a água e supre seu pulmão

Ao bravo cão que lhe acompanha
Ao leão que lhe serve de exemplo
Ruja para si mesmo, quebre o silêncio
E nunca esmoreça perante a areia que lhe suga

Pois é um guerreiro da vida
A seguí-la no Amor e na Justiça
Na Força e na Brandura
Na Harmonia e na Honra
Na Fé e na Coragem

Fases

Olá, menino
Continue a brincar com seus sonhos
Na divertida infância de não ser ninguém
Pule, brinque, dê risada
É hora da alegria

Meu caro adolescente
Na intimidade que se desvenda
Luzes a se acender
Trevas a lhe ludibriar
Continua convicto que é um aprendiz da vida

Jovem, na encruzilhada da mudança
Força para o futuro que lhe aguarda, ansioso pela maturidade
Paz para o passado vivido, a lhe sustentar por toda a vida

Homem adulto
Sinta o peso de sua responsabilidade
Que as atitudes lhe sejam realidades
Com o calor do sentimento
Com a lógica da razão

Ao senhor senil, meus cumprimentos
Chegou a idade da colheita
Coma do fruto da vida
A lhe oferecer o doce caminho que o ontem lhe direcionou
Pense no presente que se esvai ligeiro
Pronto a encarar o amanhã do além túmulo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ser feliz

Eu mereço ser feliz...

Pelo animal que perpassa o caminho da vida, nasce, vive e morre, sem paz nem vida, para me alimentar.
Pelo Sol que se explode rotineiramente, decompondo-se aos poucos, para me aquecer e iluminar.
Pela gota de chuva que se dilacera ao tocar o chão, sedenta de o molhar e permitir eu mate a sede.
Pela semente que se desnuda da carapaça, enfrenta a aridez do solo e vence a grosseria do lodo para me nutrir.
Pelo carbono, nitrogênio, oxigênio que superaram o primitivismo atmosférico, lúgubre e fétido, para estruturarem as minhas vísceras.
Pelas fibras musculares que se esticam e contraem sobre tensões e torques para me manterem em pé, sentado, correndo ou durmindo.
Pelas cordas vocais que se dilaceram, que se moldam e se atritam, para que eu consiga falar.
Pelo sangue que vence, todos os dias, a força da gravidade pelo motivo basal de manutenção de meu ciclo circulatório.
Pelo pulmão que se expande virilmente, vencendo a pressão que lhe comprime constantemente, para que eu consiga respirar.
Pelo coração que sem trégua cria e descria luz, bate e relaxa no seu ritmo sincronizado, para que eu consiga nascer e morrer, todos os dias.

Pelo meu corpo que vive, sente e pensa, impulsionado pelo desejo sagrado de existir... Eu quero ser feliz!